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Um olhar para o medo

Eu gostaria de poder te dizer que esse aperto no peito faz parte. Que você não precisa se ocupar e nem se esforçar em fazê-lo ir embora. Que não há nada de errado em sentir a garganta pressionada com algo que não se sabe bem o que é. E que a percepção de estar sendo espremido por dentro é esperada, como se você fosse a pessoa que gesta e o próprio bebê a termo no ventre, ambos em prontidão para se lançar na vastidão do desconhecido. As contrações são o veículo para a travessia. Assim também acontece com nosso crescimento interno.

Gostaria de poder ter um longo tempo ao seu lado, sem pressa, e te contar através do meu olhar que o medo faz parte de todo momento corajoso que possamos viver. Sim. Medo e coragem se complementam, um não existe sem o outro em sua forma mais pura, fazem parte de uma mesma engrenagem que nos coloca em um movimento orgânico, saudável, de vai e volta, avança e recua, percebe, experimenta e segue em frente.

Eu desejaria ainda que o tempo parasse para te mostrar em uma tela imensa junto às estrelas a nossa história – da nossa humanidade – e com ela, o infinito de vivências e percepções que nos contam que o medo tem seu lugar. Mais que uma teoria.

De verdade, ele faz parte. Nasceu junto com a vida. É parte da natureza, parte de nós, parte de nossas relações. Um ingrediente sem o qual não podemos nos regular. Não podemos nos cuidar. Não podemos nos preservar.

Eu expandiria meu coração se pudesse te contar que talvez chegássemos juntos a conclusão de que devemos, inclusive, “um aceno” ao medo. Sabe? Como quem se curva e reconhece a grandeza e importância de alguém, de algo. Como quem se posta diante de um velho senhor com tantos anos que já não sabemos contar, que transborda sabedoria e dignidade. É possível, caso pudéssemos ter este tipo de conversa, que nos curvássemos juntos diante dele, o senhor medo, também para agradecer por todo cuidado, por todo zelo prestados, pela sua presença – desde os mais remotos episódios de nossa história até hoje, aqui, agora.

E subitamente, no lugar de sentirmos medo do medo, poderíamos nos surpreender com o silêncio e a paz experimentados em sua companhia. Não porque ele mudou, mas porque nós podemos vê-lo bem agora.

É possível que eu pedisse para você prestar atenção em como você se sente agora, na presença deste senhor… E não me surpreenderia se você me dissesse que se sente bem, que se sente protegido, que se percebe, inclusive, mais forte, estável. E diante esta constatação tão inusitada, gargalhadas poderiam brotar entre nós.

É. Os velhos sabem das coisas. Quando podemos nos voltar a eles e bem vê-los, com o coração aberto, podemos ser guiados e conduzidos pelos caminhos que nos cabem passar. O medo também pertence.

Quando possível, tenha uma cadeira de honra para ele na mesa farta que habita em teu coração. Cuidado, proteção e zelo estarão presentes com ele.

08 de junho de 2020.

Texto de Monique Hanauer, terapeuta, amiga, humana e generosa a pessoa que escolhi para orientação na minha caminhada de vida.

@mohanauer

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